quinta-feira, 31 de março de 2011

O Pagador de Promessas realiza teste de elenco dia 12/04

Minha Tia (Amidete Aguiar)
A produção do espetáculo "O Pagador de Promessas" informa que estão abertas as inscrições para os atores e atrizes que quiserem participar do espetáculo dirigido por Fernando Lira. O teste acontecerá no dia 12 de abril (terça-feira) de 19h a 21h na Casa de Artes do IFCE.

Os papéis disponíveis são: Galego, Rosa e Marli. O espetáculo é realizado pela 10ª turma de conclusão do Curso Superior de Tecnologia em Artes Cênicas desde o início de 2010 e já passou por duas temporadas no Teatro Dragão do Mar, uma temporada no Theatro José de Alencar, além de ter participado da VIII Mostra Brasileira de Teatro Transcendental.

O teste será feito individualmente mediante apresentação de cena proposta para cada papel e exercício de interação com os atores que já fazem parte do elenco. Abaixo seguem as cenas do teste para cada personagem.

* Clique aqui para ler a cena do Galego
* Clique aqui para ler a cena da Marli
* Clique aqui para ler a cena da Rosa

Para se inscrever, basta enviar um e-mail dizendo para qual personagem você pretende fazer o teste, seu nome artístico, telefones e e-mail para: lilas.utopico@gmail.com

O TESTE SERÁ POR ORDEM DE CHEGADA. A produção entrará em contato para confirmar a presença. Os atores e atrizes que não se inscreverem por e-mail também poderão se inscrever no dia do teste, mas terão prioridade os que se inscreverem atencipadamente.

Mais informações: 
Amidete Aguiar (Coordenadora do Teste) - (85) 91930646

Teste de Elenco - Personagem: ROSA

ZÉ: (Olhando a igreja) É essa. Só pode ser essa. (Rosa pára também, junto aos degraus, cansada, enfastiada  e deixando já entrever uma revolta que se avoluma).

ROSA: E agora? Está fechada.

ZÉ: É cedo ainda. Vamos esperar que abra.

ROSA: Esperar? Aqui?

ZÉ: Não tem outro jeito.

ROSA: (Olha-o com raiva e vai sentar-se num dos degraus. Tira o sapato). Estou com cada bolha d’água no pé que dá medo.

ZÉ: Eu também. (Contorce-se num ritus de dor. Despe uma das mangas do paletó). Acho que os meus ombros estão em carne viva.

ROSA: Bem feito. Você não quis botar almofadinhas, como eu disse.

ZÉ: (Convicto)  Não era direito. Quando eu fiz a promessa, não falei em almofadinhas.

ROSA: Então, se você não falou, podia ter botado; a santa não ia dizer nada.

ZÉ: Não era direito. Eu prometi trazer a cruz nas costas, como Jesus. E Jesus não usou almofadinhas.

ROSA: Não usou porque não deixaram.

ZÉ: Não, nesse negócio de milagres, é preciso ser honesto. Se a gente embrulha o santo, perde o crédito. De outra vez o santo olha, consulta lá os seus assentamentos e diz: - Ah, você é  o Zé-do-Burro, aquele que já me passou a perna! E agora vem me fazer nova promessa. Pois vá fazer promessa pro diabo que o carregue, seu caloteiro duma figa! E tem mais: santo é como gringo, passou calote num, todos os outros ficam sabendo.

ROSA: Será que você ainda pretende fazer outra promessa depois desta? Já não chega?...

Teste de Elenco - Personagem: GALEGO

(Minha Tia, Galego, Dedé, Beata)

Aproximadamente, duas horas depois. Abriu-se a vendola e o Galego aparece trepado num caixote, amarrando um cordão com bandeirolas vermelhas e brancas que vai da porta da venda ao sobrado do lado oposto. Zé e sua cruz continuam no meio da praça. Ouve-se um pregão: "Beiju... olha o beiju!" Logo após, surge no alto da ladeira uma preta em trajes típicos, com um tabuleiro na cabeça. Ela desce aladeira e ao passar pelo Galego saúda.

MINHA TIA:Iansan lhe dê um bom-dia.

GALEGO:(Espanhol) Gracias, Minha Tia.

Minha Tia vai até à igreja e aí, junto dos degraus, pára.

A critério da direção e em momentos em que não prejudiquem a ação, transeuntes cruzarão a praça, durante todo o ato.

MINHA TIA:(Para o Galego) Quer vir aqui dar uma mãozinha pra sua tia, meu branco?

Galego apressa-se a ir ajudá-la. Retira primeiro o cavalete que está sobre o tabuleiro, abre-o, depois ajuda-a a tirar o tabuleiro da cabeça e colocá-lo em cima do cavalete.

MINHA TIA:Santa Bárbara lhe pague. (Nota Zé-do-Burro) Oxente! Que é aquilo?

GALEGO:Não sei. Já estava acá quando abri a venda. Parece maluco.
(Volta a pregar as bandeirolas, enquanto Minha Tia põe-se a arrumar o fogareiro, procura acendê-lo).

Desce a ladeira, passo mole, preguiçoso, Dedé Cospe-Rima. Mulato, cabeleira pixaim, sob o surrado chapéu de coco - um adorno necessário à sua profissão de poeta-comerciante. Traz, embaixo do braço, uma enorme pilha de folhetos: abecês, romances populares em versos. E dois cartazes, um no peito, outro nas costas. Num se lê: "ABC da Mulata Esmeralda - uma obra-prima" e no outro "Saiu agora, tá fresco ainda! O que o cego Jeremias viu na Lua".

DEDÉ:(declama)Bom dia, Galego amigo! dia assim eu nunca vi; para saudar Iansan, não repare eu lhe pedi: me empreste por obséquio dois dedos de parati.

GALEGO:É, com esta história de hacer versos, usted sempre me leva na conversa, (entra na venda e dá a volta por trás do balcão) É boa mesmo essa do cego Jeremias? (Serve o parati).

DEDÉ:(Bombástico, teatral) Uma epopeia. Uma nova Ilíada, onde Tróia é a Lua e o cavalo de Tróia é o cavalo de São Jorge! (Tira um exemplar e coloca sobre o balcão) Em paga do parati.

GALEGO:Si, pêro... vo prefiro Ia otra, Ia da mulata Esmeralda.

DEDÉ:Uma prova de bom gosto, Galego! (Troca os folhetos) É também uma obra-prima. Lembra Castro Alves, modéstia à parte. (Bebe o parati de um trago. Refere-se às bandeirinhas) Bandeirinhas vermelhas e brancas, as cores de Iansan. Depois diz que não crê em candomblé.

GALEGO:Yo no creo, pêro hay quem crea. E yo soy um comerciante...

DEDÉ:Somos dois! (Estende nouamente o cálice) Mais uma dose. Esta eu pago amanhã. (Galego faz cara feia, mas enche de novo o cálice).

Teste de Elenco - Personagem: MARLI

BONITÃO:Que é que você vem fazer aqui?

MARLI:Venho saber por que o senhor não apareceu em casa esta noite.

BONITÃO:Que casa?

MARLI:A minha casa.

BONITÃO:Estava indisposto. Fui para o meu hotel.

MARLI: (Mede Rosa de alto a baixo) Sim, eu estou vendo a sua "indisposição".

BONITÃO: (Em voz contida, mas enérgico) Não faça escândalo!

MARLI: Por quê? Está com medo do marido dela?

BONITÃO:Não estou com medo de ninguém, mas não vou deixar você fazer a senhora passar vexame.

MARLI:(Irônica) A senhora... se ela é senhora, eu sou donzela...

BONITÃO :(Autoritário) Marli, me obedeça!

MARLI:Está querendo bancar o machão na frente dela, é?

BONITÃO: Eu não tenho nada com ela!

MARLI:Você passou a noite com ela!

O rosto de Zé-do-Burro se cobre de sombras e ele busca nos olhos de Rosa uma explicação. Ela não o fita.

BONITÃO:(Segura Marli por um braço, violentamente) Vamos para casa!

MARLI: Pra casa? Que casa?

BONITÃO: A sua casa.

MARLI: Fazer o quê?

BONITÃO: A gente vai cantar, dançar, interpretar e fazer frivolité.

MARLI: Não! Primeiro quero tirar isso a limpo. Quero que essa vaca saiba que você é meu. (Com orgulho) Meu! (Grita para Rosa) Esta roupa foi comprada com o meu dinheiro! Esta e todas as que ele tem!

BONITÃO:(Perde a paciência, ameaçador) Se você não for para casa imediatamente, nunca mais eu deixo você me dar nada!

MARLI: (Deixando-se arrastar por ele na direção da direita) Ele é meu, ouviu? Fique com seu beato e deixe ele em paz! É meu homem! É meu homem! Há uma pausa terrivelmente longa, na qual Zé-do-Burro apenas fita Rosa, silenciosamente, sob o impacto da cena. Em seu olhar, lê-se a dúvida, a incredulidade e sobretudo o pavor diante de um mundo que começa a desmoronar. As luzes se apagam em resistência.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Temporada Dragão do Mar

Zé do Burro
Começa hoje a temporada do espetáculo "O Pagador de Promessas", clássico de Dias Gomes. Esta grande tragédia conta a história de um típico homem do sertão nordestino, pleno de sua inocência, que luta, em nome de sua honra, contra toda uma coletividade que, de maneira hostil, deseja destruí-lo. Tudo por causa de uma promessa feita para a recuperação da saúde de um animal, um burro. O fim trágico do ingênuo sertanejo torna-se sua própria redenção.

Dirigido por Fernando Lira com direção Musical de Simone Sousa, o espetáculo, que teve sua estréia no início de 2010 e já está na sua 4ª temporada, é produzido pelos alunos da 10ª turma de conclusão no Curso Superior de Artes Cênicas do IFCE, antigo CEFET. A montagem trabalha diversas músicas populares ao vivo, cantadas pelo próprio elenco., além de danças populares. A temporada seguirá por todas as terças-feiras deste mês. Vale a pena conferir!

SERVIÇO

Teatro Dragão do Mar
Terças-feiras de fevereiro (1,8,15 e 22)
Sempre às 20:00h
R$ 2,00 e R$1,00

sábado, 11 de dezembro de 2010

O Pagador de Promessas aprovado no edital do Dragão do Mar para 2011

O espetáculo O Pagador de Promessas volta ao Centro Cultural Dragão do Mar, desta vez para a temporada 2011, com novidades no elenco. O espetáculo teve sua estréia em janeiro de 2010 no Teatro Dragão do Mar, depois seguiu em curta temporada no Theatro José de Alencar e foi o único espetáculo cearense na Mostra Brasileira de Teatro Transcendental. Agora é aguardar pra conferir o retorno desse espetáculo aos palcos de um dos teatros mais respeitados da cidade. Veja abaixo todos os contemplados para o ano que vem.

RESULTADO DO EDITAL DE CULTURA DO CENTRO CULTURAL DRAGÃO DO MAR PARA 2011

PROGRAMA BRASIL INSTRUMENTAL:
  • Alexandre Cavalcante Bastos - Ceará: Terra da Música, Terra do Choro
  • Felipe Bastos da Silveira Queiroz - Tributo à Jacob do Bandolim
  • Isabel Cristina Linhares da Silva - Belíssimas Canções dos Anos 60
  • Ivan Timbó Freitas -Voltas de Ivan Timbó
  • Jefreey Cardonha Sampaio - Quintessência
  • John Nascimento da Silva - Acorde
  • Júlio César Isidório da Silva - Bandolins do Brasil
  • Marco Antônio Shoiti Leonel Fukuda – Jornada

PROGRAMA SONS DO CEARÁ:
  • Francisca Alynne Ribeiro Rolim - Show da BandaGRIS
  • Andréia Alves Gomes - Show Meu Orgulho
  • Carlos Alberto Ferreira Júnior - Instrumental Blueseiro
  • Carlos Hardy Madeira Pontes -Janelas
  • Eveline Valério Alves -Show Autoral Baque Lírico
  • Fernando Antônio Rosa de Carvalho -Fernando Rosa
  • Joanice da Silva Sampaio -  Jord Guedes-Traços
  • João Batista Alves Costa - Mungangos
  • Manoel Clodomiro Corpi  Morais - Asilo
  • Maria Pinheiro Pessoa de Andrade -Chora Jazz
  • Oscar Arruda -Uni Verso
  • Parahyba (Aluísio Moiséis de Medeiros) - Parahyba & Cia. Bate Palmas
  • Priscila Gasparetto – Grupo 1UP!
  • Ribamar Felipe Sousa Miranda - Entre o Batuque do Coração e a Poesia da Vitória

PROGRAMA DOMINGO MUSICAL:
  • Adriano Caçula Mendes - Fluxo
  • Adriano Rodrigues da Nóbrega - Nova Bossa Nova
  • Alan George Felix Mendonça - Enquanto a Cidade dorme
  • Annalies Barbosa Borges - Cantos de Porões e Alforrias
  • Camila Santos Sousa - Cinco em Ponto
  • Carlos Alberto Ferreira Junior - Projeto Rock Brasil: Uma história para cantar
  • Cecília Maria do Vale -  Toca, Nordeste!
  • Daniel do Nascimento Sombra - Canções Brasileiras: do histórico ao Contemporâneo
  • Emiliana de Paiva Gondim - Outras Mulheres
  • Francisco Edmundo Vitorano Junior - Band on the Run-“As canções de Paul Mccartney"
  • Gabriel Nunes Lopes Ferreira Homenagem ao Violão Cearense
  • Joanice da Silva Sampaio - Jardim Suspenso-Tributo a Rita Lee e Mutantes
  • Joyce Custódio de Freitas - Dança dos Sonhos
  • João Batista Alves Costa - Cantoria da Silva
  • Lindiberto Barbosa Batista - Betto Lins Cantando o Nordeste
  • Maria dos Remédios Moura Campos Audição das Cores
  • Marisol dos Santos - “Elis Regina: Na Memória feito Tatuagem!”
  • Mônica Helena Santos Sousa - E Assim...
  • Marcos Paulo Miranda Leão dos Santos - O Tempo Dirá
  • Wilton Oliveira Matos - O Primeiro Risco do Rosto de Uma Nação

PROGRAMA TEATRO DA TERÇA:
  • Andrei Bessa Siqueira Campos - Cearense por Opção: Uma Desbiografia de Rodolfo Teófilo
  • Francisco Cláudio da Silva Magalhães - Coisas da Vida
  • Graco Alves Rodrigues Aragão - O Pagador de Promessas
  • Grupo Formosura de Teatro - Heróis do Papelão
  • Associação Teatro Vitrine - Portas Abertas
  • Izabel Cristina de Vasconcelos Pinto - A Triste  Estória de Catarina e Bily Macarrão
  • José Tomaz de Aquino Júnior- Mulieres
  • Maria Liana Borges Matias - Se o Sol me desse Bom Dia
  • Rosa Ângela Alves de Moura - O malígno Baal O Associal
  • Silvero Pereira do Nascimento - O mistério da Cascata

PROGRAMA NAS RUAS DO DRAGÃO DO MAR:
  • Associação dos Pequenos Trabalhadores Organizados do Projeto de Assentamento Todos os Santos I – A Farra do Boi Carrapicho
  • Altemar Gomes Monteiro - Sertão Doc.
  • Associação Sócio Cultural  UNIVERSOS - ECO
  • Izabel Cristina de Vasconcelos Pinto - A Saga de Jesus Cristo
  • Maurilene Moreira Rodrigues - Mulheres Paradas - é gasolina, parei o trânsito, é diet: sou 2010
  • Organização Artística Pavilhão da Magnólia - Pétalas
  • Rebeka Lúcio e Neves- Plastificada
  • Vera Lúcia Santos de Araújo - Cortejo de Caretas

PROGRAMA QUINTA COM DANÇA:
  • Aspásia Mariana Santos Melo - Ato I - Como é Sentir? e Ato II - Ma Vie
  • Associação Vidança - Cia de Dança do Ceará - Visagens do Desejo - A Alma Afoita de Maria Amélia
  • Duaram Gomes Chaves - Sob Pressão
  • Francisca  Edileusa Inácio - Dizeres Operários e  Negrume
  • Grupo Teatro de Vitrine - Broto
  • Instituto Nossos Passos - Dominiq - Um Estudo Coreográfico sobre Espiritualidade
  • Joubert de Albuquerque Arrais - Eu danço Sambarroxé
  • Omí Cia. De Dança - Fidelidade da Dor
  • Silvia Jacqueline  Moura de Oliveira -Ind Gente- Uma dança para a solidão
  • Teatro Máquina -Répéter

PROGRAMA CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS:
  • Flávia Cavalcante Tavares - Histórias de Ananse, Lendas Africanas
  • Jobson Viana Oliveira - Os três Porquinhos
  • Maria Elisabete Pacheco Almeida - Era uma vez... Folclore
  • Maria Haydée Freitas Dias - Contos e Canções para Crianças
  • Maria Júlia Barros de Carvalho - Contos de Amor sem Fim
  • Nádia Domingos de Aguiar Cordeiro - Ninguém Fica só com Histórias de Vovôs e Vovós
  • Paula Yemanjá Silva Torres - Vitor Cabeça - de - Vento e outras histórias
  • Rebeka Lúcio e Neves - Contando se Conta um Conto
  • Teatro Máquina - Strega nona e outros contos  Italianos
  • Vera Lúcia Camelo - A Casa dos Sonhos

PROGRAMA PASSARELA DAS ARTES
  • Grupo N Infinito Diferente Olhar Infinito
  • Francisco Eliezio Pereira Lima - A Bruxa e a Natureza

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Crítica: "O Pagador de Promessas", por Marco Fukuda

A peça "O Pagador de Promessas" - montagem da 10ª turma concludente de Artes Cênicas do IFCE (ex-CEFET), sob direção de Fernando Lira e direção musical de Simone Sousa, em temporada no mês de janeiro de 2010 no Teatro do Dragão do Mar, é um espetáculo de encher os olhos e alimentar a alma. Foi um mergulho surpreendente na cultura popular e no rico imaginário do povo brasileiro, com convergência de linguagens artísticas. Na peça, há momentos não apenas de teatro propriamente dito, mas intervenções enriquecedoras de muita música e dança, com maracatus, batuques, cantos religiosos (rezas, benditos, incelenças), rodas de capoeira, disputas de maculelê, emboladas com desafios para repentistas, a sonoplastia toda feita ao vivo pelo grupo que estava se apresentando. Uma riqueza cultural levada ao público por um trabalho de alto nível de qualidade pela juventude de artistas de Fortaleza.

O texto de Dias Gomes, tradicional paradidático dos tempos de colégio, adaptado inclusive para a teledramaturgia, recebeu um tratamento carinhoso e cuidadoso por parte dos jovens atores e atrizes recém-formados, que provaram abundantes talento e competência em uma hora e meia de espetáculo. Os tipos sociais de uma típica cidade do interior estão muito bem caracterizados: a tia baiana e o seu tabuleiro de quitutes e delícias, a beata, o padre, o sacristão, o capoeirista, o delegado de polícia, o vendedor de literatura de cordel, o dono de bar, a prostituta, o malandro cafetão, representados de uma maneira muito viva e verdadeira, com precisão e humor.

A peça conta a história de Zé-do-Burro, um humilde agricultor, o pagador de promessas da trama, que, para curar o seu fiel companheiro Nicolau, seu jumento que estava doente, fez uma promessa de levar uma cruz por 60 léguas (360 km) do seu roçado até a mais próxima igreja de Santa Bárbara. Zé-do-Burro, convencido do sincretismo religioso, acabou por dirigindo as suas preces para o orixá Iansã, pois o terreiro de candomblé ficava a apenas 2 léguas de seu roçado. Após a cura de Nicolau, Zé divide as suas terras entre os lavradores mais pobres e leva uma pesada cruz para cumprir a sua promessa, com sua mulher Rosa a tiracolo, e causa polêmica na antes pacata cidade interiorana. O vigário não o deixa entrar por ter participado de cultos proibidos pela Igreja Católica, o repórter do jornal local vê em Zé-do-Burro um visionário, uma história digna de manchete de primeira página, um homem místico e agitador político, a favor da reforma agrária e contra a exploração do homem pelo homem. A cidade inteira se divide em calorosa polêmica, um verdadeiro estado de comoção pelo que antes parecia ser mais uma simples promessa, um costume religioso comum, que ganhou maiores repercussões.

A peça é imperdível e está nos seus últimos dias em cartaz, na próxima sexta-feira 29 de janeiro e na quarta e na sexta da semana seguinte dias 3 e 5 de fevereiro, 20h, entrada franca, no Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura em Fortaleza-CE. Fica para os leitores mais uma dica de programação cultural acessível. 

Marco Leonel Fukuda
Músico e estudante de Comunicação Social - UFC